Grande Prêmio Enor 2005

MUSAC
Leão

 
Luis M. Mansilla e Emilio Tuñón.
 
Colaboradores:
Andrés Regueiro, Luis Díaz-Mauriño, Ainoa Prats, Jaime Gimeno, Clara Moneo, Teresa Cruz, Oscar F. Aguayo, Gregory Peñate, Katrien Vertenten e Ricardo Lorenzana.
 
Fotografias:
Luis Asin

 

 

«Um experimento é um texto que narra uma situação não textual, um texto que outros depois supervisionam para decidir se se trata ou não de um simples texto. Se a prova final obtiver êxito, então não se trata de um mero texto, existe de facto uma situação real por detrás dele», Bruno Latour, (1).

 
 

Enquanto o presente se vai construindo, o passado e o futuro tomam novas formas. Cada instante, cada nova acção, torna visível uma revisão do que está feito, e também presta um perfil novo, ou inédito, – talvez ainda desconhecido – a aquilo que está por fazer, modificando de forma ininterrompida tanto a memória colectiva como os projectos de futuro.

Neste cenário cambiante, com um passado e um futuro em constante construção, a probabilidade converte-se na única aparência possível da certeza, no único rosto que lhe permite assomar-se à realidade. No coração desta transformação, a arquitectura enfoca o seu olhar de um modo mais amplo, ou dilata as suas pupilas, considerando a definição de espaço como apenas uma pequena parte do cometido a que está chamada: a construção dos ambientes artificiais nos quais se desenrolam as acções dos homens. Ou dizendo de uma forma mais precisa, o tempo e o território do colectivo, entendido este como o define Bruno Latour: «No novo paradigma emergente, substituímos mediante a noção de colectivo – definido como o intercâmbio de propriedades humanas e não humanas no seio de uma corporação – a palavra “sociedade”, tão lastrada pelas suas múltiplas conotações». (2).

É uma sorte de mobilização do mundo no qual a ferramenta fundamental é a negociação entre as partes e o objectivo a criação de cenários de vontades reais ou virtuais que incentivem a identidade colectiva. Trata-se de uma extensão, equiparando aquilo que somos ou acreditamos ser ao que nos rodeia, de modo que o verdadeiramente importante é a capacidade de multiplicar as relações entre os humanos, a natureza, as máquinas ou o virtual, de modo que nas suas disputas, nos seus conflitos, nos seus acordos, e nas suas distâncias se dilate o nosso estar na vida para dar espaço à consciência de que o homem e a mulher são natureza desenvolvendo-se graças à sua capacidade de pensar em si mesma virtualmente. Ou dito de forma mais sucinta, que somos nada menos, mas também nada mais, que uma pequena parte de um mundo que gira sem cessar, incansavelmente.
Hoje, a arquitectura socializa aquilo que não é propriamente humano, de forma a poder estabelecer, através da ciência e da tecnologia, relações com os humanos. E ainda que seja evidente que o destino dos artefactos construídos ou imaginados esteja nas mãos dos utilizadores posteriores, a arquitectura em acção pretende, voltando a B. Latour, abrir as caixas negras, explicando os acontecimentos e as máquinas desde a descoberta ou a revelação da aliança entre humanos e não-humanos.

 
 

O MUSAC, entendido não tanto como arquitectura mas também como acção, é um experimento que pretende de construir um sistema circulatório do colectivo, um novo espaço de vínculos e nós para a interacção, entendida esta como aquilo que torna visíveis – ou melhor dizendo possíveis – os vínculos entre os humanos e a natureza, as máquinas, os artefactos, os acontecimentos – acontecidos ou imaginados – ou prestes a suceder, o virtual.
Sobre um grande plano, quase um reservatório na ampliação da cidade de Leão, o MUSAC interactua com a história, ou o que resta dela, manipulando-a, ao desenhar o cenário da arte com a mesma atitude optimista com a qual os agrimensores romanos realizavam as plantas do acampamento da Legio VII – a origem da cidade – sobre a paisagem.

 

 

Mediante um processo de autonomização, herdado das descontextualizações não modernas do Pop, e das transformações escalares filhas do temor à forma, as plantas da colonização respondem a um mosaico romano: uma estrutura que se desenvolve a partir de um sistema aberto, formado por um tecido de quadrados e losangos, que permite construir uma geografia secreta da memória.

Trata-se de um processo de activação ou excitação de um fragmento que nos envolve, semelhante a arrojar uma pedra, ou uma palavra, ou uma recordação, sobre um espaço de perímetro acidentado, que recebe de forma imediata as ondas directas, reflectindo-as e deformando-as ao interactuar com aquilo que o rodeia.

Deste modo, o eco do mosaico romano expelido sobre o lugar activa perímetros insuspeitados, e ao mesmo tempo lógicos, iluminando de um modo distinto os campos lavrados próximos, sempre ordenados no seu interior mas desordenados no seu perímetro, quietos como os horizontes desertos, e a alternância de duas figuras convoca essa doce aliança com a natureza que obriga a deixar, em Castela e Leão, descansar a metade dos campos cada ano, em alqueive, para não extenuá-la.

 

 

Se olharmos noutras direcções, o roce com a geometria actualiza a potencialidade das configurações não cartesianas. A organização octogonal, na realidade, privilegia as relações de cada ponto com uma origem, estabelecendo uma ordem que pode ser ou não hierárquica, mas que se encontra com sérias dificuldades para estabelecer relações particulares com o próximo, relações de tipo específico ou diferenciador com o contíguo. Não obstante, a combinação na trama não faz referência a um centro, comportando-se sim como um mecanismo que privilegia e interactua com aquilo que é próximo ou contíguo, sem necessidade de conhecer o que é que está a ocorrer mais além. Estabelece-se assim um sistema de comportamento-padrão local, que gera as relações elemento a elemento, onde a coerência do conjunto não é dada pela divisão de uma figura completa nem pelos elementos que a compõem mas sim pela aliança que os relaciona. As ondas rebatem aqui sobre o terreno dos campos matemáticos, sob a sombra e a recordação da mesquita de Córdoba, os Estaleiros de Barcelona ou o Pavilhão Espanhol da Exposição de Bruxelas.

O processo assemelha-se a uma dinâmica que pretende de superar as diferenças entre as explicações internalistas (que olham para o conteúdo) e as externalistas (que dirigem a sua visão para o contexto), assumindo que o verdadeiramente relevante são os seus vínculos, articulações e transformações.

Ao enxertar o ambiente da arquitectura com um esquema de comportamento que ligue apenas ao próximo – o quadrado apenas sabe que tem um losango ao lado – encontramo-nos ante uma figura semelhante a um tecido, que repete um motivo, mas que pode ser recortado em qualquer ponto sem que por isso perca a sua condição, da mesma maneira que uma bandada de pássaros não o é mais ou menos se se lhe retirarem ou acrescentarem alguns pássaros. Isto é transcendental, porque chegamos a um esquema de comportamento que não vê alterado o seu carácter se se lhe acrescentarem mais peças ou se lhe retirarem, ou inclusive se estas ficarem reduzidas de tamanho ou aumentadas. Literalmente, deixa de ter importância o perímetro ou a forma do edifício, e qualquer disposição, até ajustar-se ao tamanho real necessário é igualmente válida. Qualquer disposição é equivalente, ou o que é o mesmo, possível, e a nossa recordação final ficará inalterada. Ainda que aqui o relevante não sejam as nossas recordações, mas sim o aparecimento do conceito de possibilidade e, mais ainda, o de liberdade.

 

 

Uma liberdade onde a presença do igual e do diferente se converte num terreno de reflexão que inunda o trabalho, adquirindo uma forma concreta apenas através das condições subjacentes que finalmente aparecem. A vinculação do projecto, de cada acção, de cada pensamento, a um território de reflexão comum permite dotar o trabalho de um componente abstracto, e como tal, independente da forma. Uma reflexão, ou um vector de interesses que fica logo particularizado em função das condições concretas.

Deste modo o interior do MUSAC foi construído como uma sucessão de acontecimentos espaciais contínuos mas distintos, salpicados de pátios e de grandes clarabóias, dando forma a um sistema expressivo, que nos fala do interesse que a arquitectura e a arte partilham: a manifestação contemporânea do variável e o perene, do igual e o distinto, do universal e o transitório, como um eco da nossa própria diversidade e igualdade como pessoas.

Deste modo um tanto involuntário, o MUSAC adquire um perfil nítido: o de um conjunto de regras precisas, um tabuleiro de jogo no qual aparecem simultaneamente presentes a ordem e a liberdade, a outra cara dessa presença do igual e do diverso, como eco material da nossa irrenunciável condição humana.

Face a outro tipo de espaços cuja qualidade museológica se centra na exposição de colecções históricas fechadas, o MUSAC é um espaço vivo que abre as portas a uma grande diversidade de manifestações artísticas contemporâneas; um centro de arte que constrói um conjunto de tabuleiros de jogo onde as acções são as protagonistas do próprio espaço; Um conjunto de salas de exposições autónomas, e encadeadas, permite realizar exposições de diferentes tamanhos e características; cada sala de forma quebrada constrói um espaço contínuo, mas diferenciado espacialmente, que se abre às outras salas, e pátios, propiciando visões longitudinais, transversais e diagonais.

 

 

Trata-se de um conjunto de ambientes iguais na sua geometria e construção, mas que, não obstante, através das luzes diferentes, que provêm de clarabóias, pátios e janelões, transformam-se em espaços com qualidades diversas, mediante um processo simultâneo de autonomização e aliança de acontecimentos e artefactos. Quinhentas vigas pré-fabricadas fecham alguns espaços caracterizados pela repetição sistemática e a expressividade formal com que uma luz cambiante contribui.

Esta presença da condição de igualdade e diversidade amplifica-se no lobby de entrada, onde duas grandes clarabóias, dois actantes gémeos, vertem sobre o espaço, mas cada um deles recebe a luz com distintas orientações, um a nascente e o outro a poente. Assim, pela manhã, um deixa cair uma luz quente e pesada, enquanto o outro deixa entrar uma luz azul e leve. Ao cair a tarde, e o sol girar, a situação inverte-se, como se duas clarabóias, ou duas pessoas, pudessem reconhecer ao mesmo tempo a sua diversidade, mas no final do dia, reconhecer-se como intercambiáveis, ou parte de um mesmo grupo.

 

 

No exterior, o espaço público adquire uma forma côncava para acolher as actividades e encontros, reunido por grandes vidros de cores, onde se rende homenagem à cidade como lugar de relação entre as pessoas. O seu perímetro quebrado são os restos do corte do tecido, e aparecem mais como encontrados do que como fruto de uma procura voluntariosa.

Os paramentos deste Foro revestem-se de cores, empenhados em erigirem-se como protagonistas da Representação Pública; falam-nos da vitalidade da roupa estendida e das plantas que estão penduradas nas sacadas das praças, das crianças assomadas e curiosas. Ainda que, saqueando mais outra vez impunemente a história, a sua imagem provém da pixelização de um fragmento dos vidraceiros da Catedral de Leão. Este processo de abstracção, ou de olhadela fria ou ausente sobre a figura de El Halconero afasta-o da forma, afasta-o tanto como se afasta um falcão, mas remete sem dúvida para essa combinação – afastada do pessoal – de ordem e desordem, de imbricação e desapego que só a natureza, com a sua complexidade, é capaz de produzir. Trata-se de ver o mais antigo através das pupilas da nossa época, os computadores. Apenas eles conseguem aproximar-se da natureza, de modo que a obra do homem apareça como um fragmento da natureza, ou um vestígio antropológico do futuro.

 

 

Ainda que, na verdade, nem construímos uma realidade, nem a realidade nos constrói a nós; o MUSAC apenas pretende apagar as fronteiras entre o privado e o público, entre o ócio e o trabalho e, definitivamente, entre a arte e a vida, e por isso, as suas coberturas em meandros convocam o rio Douro, que percorre todas as províncias de Castela e Leão, como se a arte e a água partilhassem esse contínuo ciclo que as faz aparecer sempre iguais e sempre novas…ou talvez, servem simplesmente para o que são, para evacuar uma água simples e normal, quotidiana. Apenas água.

 

Notas:

(1). Latour, Bruno. La esperanza de Pandora, ensayos sobre la realidad de los estudios de la ciencia. (Gedisa editorial, Barcelona, 2001) pág. 149.
(2). Ibid. pág. 231.

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