Grande Prêmio Enor 2011

Museu da Água
Lanjarón. Granada


Juan Domingo Santos.

 

Colaboradores:

Julien Fajardo, Isabel Díaz Rodríguez, Carmen Moreno Álvarez y Margarita Martínez Barbero.

 

Fotografias:
Fernando Alda

Estudio JDS

 

 

O município de Lanjarón encontra-se situado na ladeira sul da Sierra Nevada. É conhecido pelo seu artesanato, pela produção de mel e a qualidade das suas águas medicinais, contando com um dos balneários mais reconhecidos de Espanha.

 

O projecto do museu iniciou-se com a procura de um lugar onde se favorecesse a presença da água nas suas condições naturais. O espaço escolhido encontra-se situado no acesso ao Parque natural da Sierra Nevada, junto ao rio Lanjarón e a uma acéquia de rega que bordeia algumas antigas construções utilizadas como o matadouro municipal. A intenção ao localizar neste espaço o museu foi preservar o ambiente natural face à especulação urbanística, através da criação de um itinerário que relacionasse a nova actividade com as infra-estruturas de água e algumas arquitecturas próximas como moinhos e um antigo lavadouro público.

 

 

Dados os escassos meios disponíveis, a intervenção consistiu na reciclagem e reutilização de alguns elementos do espaço. As naves do matadouro, por exemplo, adaptaram-se a museu, e incorporaram-se nas novas instalações os traçados de água da acéquia e o rio através de um simples sistema de lâminas de água conectadas entre si. Diante do conjunto dispôs-se uma praça de laranjeiras ligeiramente elevada do solo, com prefabricados de betão empilhados e troncos de eucalipto de diferentes tamanhos que inundam temporalmente com a água da acéquia, o que configura um espaço com aspecto diferente ao longo do dia. A sombra e o perfume das flores de laranjeira, o som da água ao cair sobre os troncos do reservatório e os reflexos da água com a praça inundada, criam uma atmosfera refrescante antes de aceder ao museu.

 

 

O ingresso é realizado ocupando o pátio do antigo matadouro com uma nova construção em madeira. Este pavilhão alberga um espaço representativo dedicado à água e converte-se num marco de referência na paisagem. A construção evoca a cobrição do Manancial da Capuchinha, uma construção do século XVIII realizada em madeira que albergava no seu interior o primeiro nascimento da água em Lanjarón.

 

 

O novo pavilhão foi concebido como um espaço para os sentidos, suspenso no ar e com duas aberturas que permitem ao visitante aceder ao interior e participar dos efeitos de luz e penumbra. Uma lâmina de água estendida sobre o solo reforça ainda mais estas sensações, similares às dos banhos islâmicos.

 

 

A intervenção nas antigas naves foi mínima e consistiu na demolição das divisões interiores, deixando à vista as estruturas de paredes e coberturas. Durante os trabalhos pôde-se descobrir que originalmente a estrutura pertencia a um conjunto anterior de moinhos de água, pelo que a recuperação adquiriu uma dimensão arqueológica.

 

 

Os espaços expositivos foram dispostos através de uma ocupação selectiva do interior das antigas construções, deixando os currais e outras dependências inutilizados até futuras necessidades. Com o fim de contrastar os muros de pedra e tijolo do antigo moinho, foram dispostos, de forma localizada, painéis reforçados de cor branca que enquadram os lugares da nova intervenção. As duas naves principais destinam-se a salas de audiovisuais e uma terceira para exposição temática de conteúdos. Na nave mais antiga um vidro com projecções sobre a sua superfície emerge do solo inundado com água da acéquia, criando um jogo de reflexos sobre os antigos muros do moinho.

 

 

Esquema de traçados de água

A água procedente da Sierra Nevada canaliza-se neste espaço através do rio Lanjarón e uma acéquia de rega que alimenta um lavadouro público próximo e as plataformas agrícolas do vale. O museu estrutura-se à volta destes traçados históricos aos quais se vinculam três novas lâminas de água conectadas entre si e abastecidas pela acéquia de rega.

 

 

O enchimento destes reservatórios é realizado através de duas derivações realizadas sobre o canal que verte as suas águas num pavilhão de madeira e numa praça arborizada com laranjeiras. No interior, uma das naves recuperadas para museu inunda-se com água sobrante do pavilhão de madeira. O circuito natural da água encerra-se na praça de laranjeiras onde se reconduz até o rio Lanjarón para continuar o seu caminho para o mar.

 

 

Praça de água e sombra

O espaço situado diante do museu é formado por 17 laranjeiras de sombra e um solo de troncos de madeira de eucalipto inundado temporalmente pela água de uma acéquia procedente da Sierra Nevada. Os troncos de madeira utilizados procedem das árvores do parque caídas depois de um vendaval, cortadas e recicladas com tamanhos diferentes foram agrupadas para formar um pavimento de 20 centímetros de altura que permite a passagem da água entre elas. Esta superfície de madeira, da qual emergem ordenadamente as laranjeiras, muda de aspecto segundo o caudal da acéquia. Em momentos de escasso caudal converte-se num lugar acessível para o jogo de crianças sob as árvores, enquanto com caudal abundante a praça inunda-se até se converter num espelho que reflecte o que sucede à sua volta. A lâmina de água estendida sobre os troncos de madeira proporciona um aspecto irreal às antigas naves que parecem flutuar como ruínas resgatadas da água que emergem do subsolo. As mudanças físicas neste espaço motivadas pelos aumentos ou diminuições do caudal de água da acéquia, produzem também outros efeitos, como refrescar o ambiente ou proporcionar uma sensação de calor quando os troncos ficam a descoberto.
 

 

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